MARIA ANICETA DA SILVA – Matrícula BB 6.827.675
22 22UTC outubro 22UTC 2009
Assumi no BB em 1975 e sumi do BB no PDV em 1995. O tempo que transcorreu entre os primeiros anúncios de que iria sair uma lista de elegíveis para aderirem ao PDV e a concretização deste, foi muito drástica para alguns e desumanamente letal para outros. Tínhamos escolhas? Não. Éramos elegíveis em tudo, candidatos a nos comportarmos daquela forma.
Tudo era esperado, seguramente previsto por “eles”, os autores desse crime.

Talvez o inesperado esteja acontecendo agora com essa união hoje, embora tardia, mas acontecendo, são conquistas, esperanças, lutas e iniciativas através de blogs, orkuts, sites, PLs, Movimento, audiências, reuniões e Associações.
As reuniões que aconteciam naquela época terrível, na gerência com os elegíveis, funcionavam como um reforço mais pesado que adicionasse “mais pressão na panela” até o ponto de finalmente estourar, mas só que, do nosso lado. Um dia, para exemplificar momentos entre tantos, nesse processo que deixou seqüelas importantes para os que sobrevivem até hoje, eu estava designada para atuar numa bateria de caixa e repentinamente era designada para assumir um atendimento específico, noutro setor, onde propositadamente, eu não houvesse sido treinada para isso.
Outro exemplo: mandavam-me pegar um baú na tesouraria para atuar no caixa na agência local e depois desistiam e me faziam encerrar o caixa, no meio do expediente, para sair da agência e atuar num posto de serviço em outro bairro. No dia seguinte, ao retornar para o trabalho eu não sabia o que iria acontecer comigo. Para onde me mandariam? O que diriam? E frases como: “ela não sabe fazer esse serviço”, resultante de uma situação criada para me constranger na presença dos clientes.
Quando em casa chegava, começava a chorar sem saber o que decidir, chamava meus dois filhos para conversarmos juntamente com meu marido (hoje ex-marido) e contava da aflição e pedia a opinião deles sobre o que eu deveria fazer. Eu falei pra eles que estava sendo ameaçada de, se não aderisse ao PDV, o Banco me transferiria para muito longe da minha família. Situação que não era muito bem vista por todos: meu marido, meus dois filhos e eu. Mas ainda aleguei para eles, argumentando, que dois anos se passariam rápido. Eu poderia ir para onde o banco quisesse me mandar e eles (meu marido e meus filhos) haveriam de ficarem bem porque os filhos, já os considerava menos dependentes de mim. E este era o tempo que faltava para me aposentar, adicionando o tempo que trabalhei como professora contratada do Estado antes de assumir no banco.
Pois bem, entre incertezas e esperanças de que não iriam me acontecer coisas tão graves eu resolvi assinar. Não só pensando em mim como deveria, nem sem antes consultar minha família, sobre se caso aderisse ao PDV e algo desse errado no futuro por causa disso, como ficaríamos? Eu me sentiria muito culpada. E isso aconteceu, me trazendo muitos problemas existenciais. Meu marido quis ir até a agência procurar saber sobre os assédios que eu comentava de leve, porque sabia do seu temperamento e capacidade de querer tomar satisfações e se fosse o caso partir até para agressão física com algum colega, por isso não comentava de fato, o terror a que realmente eu estava sendo obrigada a vivenciar. Chegava à minha casa e não conseguia dormir pensando sempre no dia seguinte. Tinha que ficar calada e refletindo, num isolamento psicológico conseqüente dos assédios morais que sabia, iriam se repetir no dia seguinte.
Esse período fatídico, constrangedor, repulsivo, porque partindo do seu próprio colega, alguns até considerados amigos, foi o início de um processo psicológico que havia sido plantada a semente naqueles instantes e eu nem tinha condições de perceber o que o banco estava realmente fazendo comigo, além de simplesmente me roubar o emprego. Não só arrancando das minhas mãos a minha dignidade conquistada com muito estudo e esforço, mas me fazendo entrar num processo depressivo e angustiante de me ver de repente em casa com perspectivas incertas diante do que o banco agora me oferecia para “me virar” sugerindo entrar num negócio empreendedor. Havia certa resistência em me direcionar para essa nova condição porque fui treinada, durante 20 anos, para ser executiva.
Quando assinei o PDV me afastei do Banco, dos colegas e da própria vida.
Presenciei muitos absurdos acontecendo: colegas sendo hospitalizados e alguns não resistindo e chegando a falecer, inclusive, dentro do próprio ambiente de trabalho. Isso funcionava até como mais um tipo de pressão para que aderíssemos ao Programa o mais rápido possível.
Lembro um fato que me chocou bastante: meu filho esteve na agência onde trabalhei pela última vez e um colega quis saber como eu estava e perguntou se eu havia me arrependido de ter aderido ao PDV. Ele estava na dúvida se também deveria aderir ou não. Lembro-me que meu filho me havia feito essa pergunta e eu falei que sim, havia me arrependido e lamentava muito, mas agora não tinha mais jeito. Era vivenciar as conseqüências da melhor forma possível, se é que existia uma melhor forma possível de vivenciar uma ruína dessa natureza. Meu filho respondeu então a esse colega, que sim.
Em seguida a esse fato, soube alguns dias depois que ele havia dado um tiro na boca usando sua espingarda em casa. Recordo-me que esse colega era muito revoltado e de temperamento inquieto, político, envolvido em campanhas dessa natureza. Coincidência ou não, talvez esse sim, tenha contribuído também para o somatório dos conflitos existenciais que no momento vivenciava, entre deixar o emprego e/ou outros que sempre desconhecemos o que vai no íntimo das pessoas.
O dinheiro que recebi meu marido emprestou para amigos e familiares, ocasionando algumas perdas por causa disso; simultaneamente eu buscava nos jornais de grande circulação no país, algo que me atraísse e visse como oportunidade de trabalho. Sugeri ao meu marido que comprássemos uma franquia e assim o fizemos. Atuamos em Natal e chegamos a nos transferir para Recife e lá administrávamos duas franquias de vendas de micro-computadores, mas por pouco tempo. Começamos a ter problemas familiares e resolvemos voltar para Natal, se desfazer das franquias e empreender nosso próprio negócio. Começamos a centralizar esforços familiares nessa nova empreitada e tudo estaria bem se junto com tudo isso não estivesse sendo acentuada a questão da incompatibilidade pessoal e profissional entre meu marido e eu. Nesse ínterim, cabe ressaltar que continuávamos a pagar a casa até fevereiro de 2000, também meu INSS, já que por precipitação e ignorância eu havia rejeitado a condição que o banco me oferecia de continuar pagando por 05 (cinco) anos meus direitos, para que no tempo hábil eu pudesse me aposentar pela PREVI.
Resolvi primeiro sair do negócio, que havíamos montado juntos, meu ex-marido e eu, para em seguida também sair da sua vida. Abandonei minha casa e fiquei sem saber o que fazer da vida.
Tinha minha aposentadoria que havia apressado em consolidar por causa da condição financeira de continuar pagando por mais tempo, deixando então de receber um valor mais significativo hoje, para continuar vivendo com mais dignidade. Vale registrar que se minha família (minha mãe e uma irmã) até hoje não me ajudasse pagando meu plano de saúde e complementando minha subsistência, penso que nem teria como saber que existia um movimento nacional lutando pelos nossos direitos.
Por causa de uma separação traumática, embora acontecendo em seguida o divórcio consensual, adicionado a tantos outros problemas já existentes, precisei de ajuda psiquiátrica, psicólogo (sessões de psicoterapia) e medicação controlada, que até hoje ainda me é administrada, tanto para ajudar a sair de um “transtorno de estresse pós-traumático” adquirido pela separação como para ajudar a administrar a conviver da melhor forma com todas as conseqüências advindas e ocasionadas pela minha adesão coercitiva ao PDV.
“Meu” imóvel, comprado através da PREVI, se deteriora a cada dia. Vivo na expectativa da chegada de um oficial de justiça, haja vista a falta de condição para continuar pagando tampouco preservando; sofro ameaças de advogados contratados pela PREVI para continuar aterrorizando e ameaçando tomar o único lugar que possuo para morar.
Entretanto, reluto ainda pensando recuperar uma reparação por tantos danos, embora alguns irrecuperáveis, porque não se reverte a natureza humana quebrantada pela agressão moral e desumana que fomos obrigados a vivenciar. Mas sabemos que o Banco e a PREVI sabem que nada disso teria acontecido, nada estaríamos devendo se não houvessem roubado nossos empregos, aposentadoria, plano de saúde, financiamento imobiliário, violado nossos direitos humanos.
Sobre todo negócio de injustiça, sobre boi, sobre jumento, sobre gado miúdo, sobre veste, sobre toda coisa perdida, de que alguém disser que é sua, a causa de ambos virá perante os juízes; aquele a quem condenarem os juízes o pagará em dobro ao seu próximo.
E ainda mesmo que houvesse eu afirmado ao pecador que ele haveria de morrer, se, renunciando ao mal, se ele devolver o penhor que exigiu, se restituir o que roubou, se observar as leis que dão vida e se se abstiver de todo o mal, ele viverá e será preservado da morte.
(Êxodo 22: 3; 9 e Ezequiel 33: 14-15)








Comentário por othon figueiredo freitas — 22 22UTC outubro 22UTC 2009 (18:25)
Nossos problemas são iguais, porém com algumas variantes.
Bastaria este depoimento para a Corte fazer justiça.
othon
Comentário por edson pereira — 22 22UTC outubro 22UTC 2009 (19:09)
Guerreira Aniceta:
A vitória está por vir. Lavaremos a nossa alma.
Um grande abraço!!!
Comentário por Sylvia Leandro — 26 26UTC outubro 26UTC 2009 (20:20)
Vamos à luta até que a justiça seja feita!!