HISTÓRIAS DOS DEMITIDOS DO BB

Espaço aberto às histórias dos Demitidos do Banco do Brasil, aos depoimentos de familiares e amigos dos demitidos falecidos ou desaparecidos, e aos colegas aposentados precocemente para sobreviver às demissões abusivas, os quase Demitidos do BB.

MARIA DA PENHA MATTOS CAVALCANTE – Matrícula BB 6.864.150-8

19 19UTC outubro 19UTC 2009

  Esta é a minha história, sou Maria da Penha Mattos Cavalcante, matrícula no BB – 6.864.150-8 – última agência trabalhada: CESEC Comércio – Salvador – BA (1940-2), posse no banco: 12/05/1982, saída no PAQ: 01/06/1997, atualmente resido em Salvador-BA.

 

  Ano de 1981, é divulgada a abertura do concurso para o Banco do Brasil, um sonho de emprego e estabilidade, tudo que eu almejava na vida. Recém casada e com apenas 15 dias de resguardo da minha primeira filha, me inscrevi e fui fazer a prova para o BB. Ainda lembro das palavras de incentivo do meu esposo e da minha família, você é muito inteligente, vai passar, acredite, este não é o seu sonho?. Então eu fui mesmo com o incomodo e sentido dores e desconforto para sentar naquela sala, fiz a prova e consegui passar, que maravilha, tudo estava dando certo, todos os meus desejos estavam se realizando.

  

 

  Tomei posse em maio de 1982, apesar das dificuldades iniciais, pois havia sido lotada para o interior da Bahia, Inhambupe, e o meu Marido teria que continuar em Salvador, sabíamos que o sacrifício inicial era para um futuro melhor. Em Julho de 1983, nasce o meu segundo Filho, Ele nascera com problemas respiratórios e o clima da Cidade agravava ainda mais suas crises, sem ter suporte para o atendimento na Cidade, tive que pedir ajuda a um funcionário do BB, que prontamente me trouxe a Salvador as presas para atendimento de urgência do meu Bebê.

 

  Fui ao serviço Médico do BB e me transferiram imediatamente para Salvador, lotada agora no CESEC Comércio, e meu Filho pode ter todo o acompanhamento médico necessário.

 

No CESEC recebi todo o apoio da Família BB, o local de trabalho era ótimo, até começarem com o terrorismo, CESEC vai fechar, vão ser todos transferidos e não sabíamos para onde, o CESEC esta com excesso de funcionários, o CESEC vai ser divido em dois, alguns funcionários irão ser transferidos para o novo CESEC, fecha o outro CESEC que mal tinha sido inaugurado, fecha agência, funcionário chegando transferido, sem saber se iriam ficar ali, ou se iriam ser transferidos novamente”.

Nós trabalhávamos sem saber o que iria acontecer no dia seguinte. Estava no cargo comissionado, minha avaliação tinha sido ótima, tinha sido indicada para o cargo de Supervisão, mas um dia, sem ser comunicada por ninguém, não era mais comissionada, a comissão seria da colega do outro CESEC que veio transferida com a carteira. Onde estavam os meus chefes que quando me deram à comissão me chamaram, conversamos, e assumi a carteira, e agora? Simplesmente você não é mais a dona da carteira?

 

  E agora?  Perguntei-me, e as minhas dívidas, quem iria pagar o meu cartão, o cheque-ouro, etc. Entrei em desespero, meu marido tinha sido demitido na privatização da Telebahia, eu tinha perdido minha comissão, e agora o que faríamos? Estava com dívidas e no momento a lei no banco era para que todos mantivessem suas contas sem estouro e pagassem seus cartões de créditos, por que este era um dos motivos que levaria a demissão. No banco trabalhávamos pensando em quem seria o próximo, quem seria transferido ou colocado a disposição, o CESEC estava superlotado, em Salvador não tinha vaga, só se falava em vagas em agência longe, em outros estados.

 

  O meu último ano do banco foi muito traumático, presenciei o suicídio de um colega, a morte de uma outra colega que estava sendo colocada à disposição, a loucura de vários colegas, eu não desejava isto para mim, tinha filhos pequenos que precisavam de mim, não queria enlouquecer ou chegar ao extremo de cometer um suicídio por causa  das dividas.

O banco estava dando um VP, um vencimento-padrão para cada ano, mais todas as vantagens da PREVI, para quem aderisse ao PDV, eu atolada em dívidas, o cheque-ouro estourado, o ourocard me cobrando, não pensei duas vezes, saí  no meio da pressão pensando que me daria bem, já que o banco disse que daria suporte, cursos para quem fosse abrir seu próprio negócio, ILUSÃO, ele nunca entrou em contato ou me ofereceu um curso, e não recebi tudo que o banco disse que receberia.

Senti-me traída, abandonada, e os meus amigos, a quem se diziam a minha família, onde estavam? Estava com tanta aversão ao Banco, que nem entrada na justiça trabalhista para pedir a revisão dos meus cálculos eu dei, eu não queria ouvir falar no Banco do Brasil. Passei uma borracha no período que me intitulei funcionária do BB, não freqüentava a AABB que era o clube que meus filhos amavam, me afastei de todos os meus amigos só por que eram funcionários do BB, troquei meus filhos de escola, eles estudavam na Cooperativa Satélite (cooperativa formada por funcionários do BB), eu só queria esquecer que um dia eu tinha sido funcionária do Banco do Brasil, só queria me sentir bem.

 

  A desilusão foi tanta, que nunca mais entrei numa agencia do BB para nada, se tivesse que passar em frente a uma, eu atravessava a rua, contanto que eu não tivesse contato algum com o BB. Minha conta no banco não sei como está, nunca mais movimentei e também não fui à agência para encerrar, as ações, é eu ainda possuo as ações do BB, mas não sei como estão,  e o lucro só Deus sabe onde está sendo depositado. Governo, BB e PREVI me massacraram, quase acabaram comigo e com toda minha família.

Minha vida depois do banco, não foi ótima, porém não fiquei louca. Tinha uma casa em um condomínio fechado ao lado da AABB em um bairro nobre aqui em Salvador que tive que vender, hoje moro na Boca do Rio, um bairro popular, abrimos uma Panificadora que não deu certo, eu e  meu marido tentamos uma colocação no mercado de trabalho, porém nada conseguimos por que somos velhos para o sistema financeiro, apesar de possuirmos nível superior, e vários cursos de especialização. Meu marido foi trabalhar com táxi, e eu fiquei com os serviços domésticos.

 

 Há quatro anos em 12/10/2005, meu marido sofreu uma AVC com PCR, onde ficou em coma internado na UTI do Hospital Geral Roberto Santos, de lá para cá tenho enfrentado muitas dificuldade, mas não me dei por derrotada, era capaz de vencer e se Deus estava do meu lado, venceria e passaria por mais esta dificuldade, ele faleceu oito meses depois, neste período e até o presente momento para sustentar a minha família (eu e três filhos) dou aula de reforço em casa.

Agora tenho esperança de que a justiça será feita, nada para Deus fica impune.

 

 

O SENHOR DEUS DIZ:

Não prejudicareis a viúva e o órfão;

Despedias as viúvas com as mãos vazias, quebravas os braços dos órfãos;

As lágrimas da viúva não correm pela sua face, e seu grito não atinge aquele que as faz derramar?

Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem. Respeitai o direito, protegei o oprimido; fazei justiça ao órfão, defendei a viúva.

(Êxodo 22, 22; Jó 22,9; Eclesiástico 35,18; Isaías 1,17)

2 Comentários »

  1. Comentário por edson — 19 19UTC outubro 19UTC 2009 (8:19)

    Chocante, triste, E verdadeira a tua história, MARIA DA PENHA!Parabéns pela coragem!!! A vitória nos persegue e está bem próxima!Um grande abraço!!!

  2. Comentário por JAIME BASSO — 19 19UTC outubro 19UTC 2009 (9:13)

    AMIGA MARIA DA PENHA,
    NAO DESISTA NUNCA, A VERDADE PREVALECERÁ…É TRISTE OUVIR ISSO QUANDO NOS FALTAM ATÉ OS TROCADOS PRA IR NA PADARIA PRA BUSCAR UM PAO PARA NOSSOS FILHOS…E ISSO ACONTECEU COM DEZENAS DE MILHARES DE GENTE QUE TINHA SE DADO BEM E FOI COVARDEMENTE ROUBADA…MAS O DIA DO ACERTO CHEGARÁ, ESTÁ CADA VEZ MAIS PERTO…
    SOBRE CONVIDAR FHC PARA ALGUM ENTERRO, NÃO PRECISA, ELE JÁ É UMA MENTE MORTA, UM DEMÔNIO DESENCARNANDO, JÁ LEVARAM A COMPANHEIRA ‘MENTALMENTE MASTURBATÓRIA” DO IMPOTENTE VIL…

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