HISTÓRIAS DOS DEMITIDOS DO BB

Espaço aberto às histórias dos Demitidos do Banco do Brasil, aos depoimentos de familiares e amigos dos demitidos falecidos ou desaparecidos, e aos colegas aposentados precocemente para sobreviver às demissões abusivas, os quase Demitidos do BB.

GLAUCO ANTONIO DIAS – Matrícula BB 3.804.660

12 12UTC outubro 12UTC 2009

RELATO SINTÉTICO DA MINHA DEMISSÃO DO BANCO DO BRASIL

 

  Eu trabalhava no Cesec Currais Novos (RN) quando começou esse assunto de demissão voluntária no Banco do Brasil.

 

Na verdade, antes de tudo, lembro-me de uma campanha infame no governo de Fernando Collor sustentando que os funcionários do Banco do Brasil eram marajás, uma aberração, quando sabemos que na época o salário médio dos funcionários girava em torno de apenas mil reais.

 

Assim constituiu-se um plano maquiavélico para demissão em massa dos funcionários, apenas com o intuito de roubar nossa poupança para aposentadoria; o nosso fundo de pensão (depois de 30 anos foi descoberta a fraude no decreto lei 81240/78), que causou toda essa vilania, matança, roubo, dos funcionários dos bancos federais e das estatais.

 

Então começou em todo o Banco do Brasil a pressão psicológica de que o Banco dava muito prejuízo e necessitava urgentemente readequar seu quadro de funcionários, partindo para uma redução em massa em torno de 40.000 funcionários, senão o banco quebrava, era o que se preconizava na época.

 

Vieram então as informações internas incentivando os funcionários a pedirem demissão de forma “voluntária”, com incentivo financeiro e apoio logístico após a demissão. Depois vieram as ameaças dos administradores, com transferências para regiões inóspitas, perda de comissão, classificação de “elegíveis” para demissão, sem nenhum processo administrativo, apenas acusações de incompetência, negligência, coisa que antes não existia na instituição, o que gerou a circulação de um dos boletins internos do banco chamado de GAREF, editado em 11.07.1995, com a opinião de um dos diretores do banco, conforme abaixo:  

                                       PDV E DRH 30 

“TRANSCREVEMOS, ABAIXO, A ÍNTEGRA DO VOTO NO QUE SE REFERE AS NOVAS DOTAC0ES PROPONHO O QUE SEGUE:

- QUE SE RECOMENDE AO CONSELHO DIRETOR QUE DETERMINE AOS ADMINISTRADORES QUE SE ABSTENHAM DE PRESSIONAR FUNCIONÁRIOS PARA QUE ADIRAM AO PROGRAMA; - QUE SE PRORROGUE O PRAZO PARA ADESÃO EM MAIS 30 DIAS, VISTA A FORMA AÇODADA COMO O PROCESSO ESTAH OCORRENDO;

- QUE ESTE CONSELHO DELIBERE PELA FORMAÇÃO DE COMISSÃO DE ALTO NÍVEL PARA GERENCIAMENTO DO PLANO, COMPOSTA POR PESSOAS EXPERIENTES NA AREA DE RECURSOS HUMANOS, EM VISTA DA FORMA ATABALHOADA COMO VEM SENDO IMPLANTADO”.

 

“NADA TENHO CONTRA A IMPLANTAÇÃO DE UM PROGRAMA DE DEMISSÕES VOLUNTÁRIAS, QUANDO EFETIVAMENTE VOLUNTÁRIAS, E NÃO DE FORMA COERCITIVA COMO SE CONFIGURA HOJE. ACHO MAIS. O BANCO DEVE ABRIR O PROGRAMA PARA OS QUE DESEJAREM PEDIR DEMISSÃO, HOJE, INDEPENDENTE DE ESTAREM OU NÃO ENQUADRADOS COMO “ELEGÍVEIS”. QUE O BANCO SUSPENDA IMEDIATAMENTE A IMPLANTAÇÃO DO SISTEMA DRH…”

 

Mesmo com o apelo do diretor, a pressão e a ânsia pela adesão ao programa se intensificaram, chegando ao ponto de nos darem apenas 15 dias para tomar uma decisão tão importante, que hoje sabemos custou a vida de centenas de funcionários, que só de suicídios foram catalogados 28, pelo menos 02 dentro das dependências do banco, afora as milhares de famílias destruídas, com alcoolismo, depressão, infartos, avcs, derrames, etc.

 

         

Lembro-me perfeitamente, quando meu chefe chegou para mim e disse: Glauco! Não tem jeito, “O Cesec vai fechar e a transferência para lugares inóspitos é real, ou se transfere ou vai no PDV” E foi o que aconteceu,de todas os colegas que conheço, quem não aderiu foi transferido para longe, era uma guerra psicológica terrível contra os funcionários.

Consumada a minha demissão sem justa causa do Banco do Brasil, dediquei-me ao comércio, e iniciei um doloroso trabalho de comprar e vender confecções em atacado, porém, sem nenhum apoio, nenhuma orientação e conhecimento, pois o Banco não cumpriu com o que prometera em nos habilitar na nova atividade.

 

Não obtive êxito e em pouco tempo fali e passei então a vender todo o meu patrimônio, conseguido com muito esforço durante o período trabalhado; como não era muita coisa, em pouco espaço de tempo, acabou, como acabou plano de saúde, colégio pago, feira farta, contas em dia, lazer, seguro de vida, casa, carro, etc. Assim, naturalmente, veio a depressão, angústia, desespero, e, auto-estima no fundo do poço, conflitos familiares.

 

  Imaginem, um homem que trabalha desde os 15 anos, estuda e é aprovado em concurso público, concorrendo com milhares de candidatos, é aprovado e assume o emprego dos seus sonhos, e nessa nova fase de sua vida, torna-se funcionário de carreira em uma das instituições mais cobiçadas do país, constitui família e dá a essa família condição digna de viver.

 

    De repente, como se fosse um raio ou num passe de mágica é obrigado a pedir demissão do emprego, que outrora tanto batalhou para conseguir. Foi o que aconteceu com as demissões “coercitivas” (usando o termo do diretor do Banco do Brasil).  É muita injustiça.

 

   Daí em diante foram anos e anos vivendo totalmente ao amparo de familiares, biscates, cousas incertas. Queria ver como reagiriam esses psicopatas do poder, autores desse massacre, se ficassem em nossa situação. Após 14 anos, ainda vivo a duras penas, com ajuda da família (bendita família) e de biscates.

 

    A Deus, principalmente, devemos toda a nossa vida. Nele encontramos paz, saúde, abrigo, sustento, alegria, conforto e principalmente vida, pois se não fosse o Senhor, seria impossível viver após essa trágica demissão. E por confiar neste Deus, é que aguardo justiça, sim, ela virá! Pois a justiça de Deus nunca falha.

 

“… todos os atos  de justiça do homem é como trapos da imundícia”.

              (Is. 64:6)

 

             “SOMENTE A DEUS A GLÓRIA” 

 

Natal (RN), 07 de outubro de 2009.

Glauco Antonio Dias

PDV/1995 – Natal RN

1 Comentário »

  1. Comentário por glaucio — 14 14UTC outubro 14UTC 2009 (13:23)

    Com toda certeza o Senhor restituirá tudo o que um dia foi tomado de todos os demitidos do BB.Quanto aos responsáveis por todo esse sofrimento em massa, eles irão colher toda a maldade que um dia eles plantaram.

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