HISTÓRIAS DOS DEMITIDOS DO BB

Espaço aberto às histórias dos Demitidos do Banco do Brasil, aos depoimentos de familiares e amigos dos demitidos falecidos ou desaparecidos, e aos colegas aposentados precocemente para sobreviver às demissões abusivas, os quase Demitidos do BB.

MARIA ANICETA DA SILVA – Matrícula BB 6.827.675

22 22UTC outubro 22UTC 2009

Assumi no BB em 1975 e sumi do BB no PDV em 1995. O tempo que transcorreu entre os primeiros anúncios de que iria sair uma lista de elegíveis para aderirem ao PDV e a concretização deste, foi muito drástica para alguns e desumanamente letal para outros. Tínhamos escolhas?  Não. Éramos elegíveis em tudo, candidatos a nos comportarmos daquela forma.

 

Tudo era esperado, seguramente previsto por “eles”, os autores desse crime.

 

Talvez o inesperado esteja acontecendo agora com essa união hoje, embora tardia, mas acontecendo, são conquistas, esperanças, lutas e iniciativas através de blogs, orkuts, sites, PLs, Movimento, audiências, reuniões e Associações.

 

As reuniões que aconteciam naquela época terrível, na gerência com os elegíveis, funcionavam como um reforço mais pesado que adicionasse “mais pressão na panela” até o ponto de finalmente estourar, mas só que, do nosso lado. Um dia, para exemplificar momentos entre tantos, nesse processo que deixou seqüelas importantes para os que sobrevivem até hoje, eu estava designada para atuar numa bateria de caixa e repentinamente era designada para assumir um atendimento específico, noutro setor, onde propositadamente, eu não houvesse sido treinada para isso.

 

  Outro exemplo: mandavam-me pegar um baú na tesouraria para atuar no caixa na agência local e depois desistiam e me faziam encerrar o caixa, no meio do expediente, para sair da agência e atuar num posto de serviço em outro bairro. No dia seguinte, ao retornar para o trabalho eu não sabia o que iria acontecer comigo. Para onde me mandariam?  O que diriam? E frases como: “ela não sabe fazer esse serviço”, resultante de uma situação criada para me constranger na presença dos clientes.

 

Quando em casa chegava, começava a chorar sem saber o que decidir, chamava meus dois filhos para conversarmos juntamente com meu marido (hoje ex-marido) e contava da aflição e pedia a opinião deles sobre o que eu deveria fazer.  Eu falei pra eles que estava sendo ameaçada de, se não aderisse ao PDV, o Banco me transferiria para muito longe da minha família. Situação que não era muito bem vista por todos: meu marido, meus dois filhos e eu. Mas ainda aleguei para eles, argumentando, que dois anos se passariam rápido. Eu poderia ir para onde o banco quisesse me mandar e eles (meu marido e meus filhos) haveriam de ficarem bem porque os filhos, já os considerava menos dependentes de mim. E este era o tempo que faltava para me aposentar, adicionando o tempo que trabalhei como professora contratada do Estado antes de assumir no banco.

 

Pois bem, entre incertezas e esperanças de que não iriam me acontecer coisas tão graves eu resolvi assinar. Não só pensando em mim como deveria, nem sem antes consultar minha família, sobre se caso aderisse ao PDV e algo desse errado no futuro por causa disso, como ficaríamos?  Eu me sentiria muito culpada. E isso aconteceu, me trazendo muitos problemas existenciais. Meu marido quis ir até a agência procurar saber sobre os assédios que eu comentava de leve, porque sabia do seu temperamento e capacidade de querer tomar satisfações e se fosse o caso partir até para agressão física com algum colega, por isso não comentava de fato, o terror a que realmente eu estava sendo obrigada a vivenciar. Chegava à minha casa e não conseguia dormir pensando sempre no dia seguinte. Tinha que ficar calada e refletindo, num isolamento psicológico conseqüente dos assédios morais que sabia, iriam se repetir no dia seguinte.

Esse período fatídico, constrangedor, repulsivo, porque partindo do seu próprio colega, alguns até considerados amigos, foi o início de um processo psicológico que havia sido plantada a semente naqueles instantes e eu nem tinha condições de perceber o que o banco estava realmente fazendo comigo, além de simplesmente me roubar o emprego. Não só arrancando das minhas mãos a minha dignidade conquistada com muito estudo e esforço, mas me fazendo entrar num processo depressivo e angustiante de me ver de repente em casa com perspectivas incertas diante do que o banco agora me oferecia para “me virar” sugerindo entrar num negócio empreendedor.  Havia certa resistência em me direcionar para essa nova condição porque fui treinada, durante 20 anos, para ser executiva.

 

Quando assinei o PDV me afastei do Banco, dos colegas e da própria vida.

 

Presenciei muitos absurdos acontecendo: colegas sendo hospitalizados e alguns não resistindo e chegando a falecer, inclusive, dentro do próprio ambiente de trabalho. Isso funcionava até como mais um tipo de pressão para que aderíssemos ao Programa o mais rápido possível.

Lembro um fato que me chocou bastante: meu filho esteve na agência onde trabalhei pela última vez e um colega quis saber como eu estava e perguntou se eu havia me arrependido de ter aderido ao PDV. Ele estava na dúvida se também deveria aderir ou não. Lembro-me que meu filho me havia feito essa pergunta e eu falei que sim, havia me arrependido e lamentava muito, mas agora não tinha mais jeito. Era vivenciar as conseqüências da melhor forma possível, se é que existia uma melhor forma possível de vivenciar uma ruína dessa natureza. Meu filho respondeu então a esse colega, que sim.

 

  Em seguida a esse fato, soube alguns dias depois que ele havia dado um tiro na boca usando sua espingarda em casa. Recordo-me que esse colega era muito revoltado e de temperamento inquieto, político, envolvido em campanhas dessa natureza. Coincidência ou não, talvez esse sim, tenha contribuído também para o somatório dos conflitos existenciais que no momento vivenciava, entre deixar o emprego e/ou outros que sempre desconhecemos o que vai no íntimo das pessoas.

 

O dinheiro que recebi meu marido emprestou para amigos e familiares, ocasionando algumas perdas por causa disso; simultaneamente eu buscava nos jornais de grande circulação no país, algo que me atraísse e visse como oportunidade de trabalho. Sugeri ao meu marido que comprássemos uma franquia e assim o fizemos.  Atuamos em Natal e chegamos a nos transferir para Recife e lá administrávamos duas franquias de vendas de micro-computadores, mas por pouco tempo. Começamos a ter problemas familiares e resolvemos voltar para Natal, se desfazer das franquias e empreender nosso próprio negócio. Começamos a centralizar esforços familiares nessa nova empreitada e tudo estaria bem se junto com tudo isso não estivesse sendo acentuada a questão da incompatibilidade pessoal e profissional entre meu marido e eu. Nesse ínterim, cabe ressaltar que continuávamos a pagar a casa até fevereiro de 2000, também meu INSS, já que por precipitação e ignorância eu havia rejeitado a condição que o banco me oferecia de continuar pagando por 05 (cinco) anos meus direitos, para que no tempo hábil eu pudesse me aposentar pela PREVI.

 

  Resolvi primeiro sair do negócio, que havíamos montado juntos, meu ex-marido e eu, para em seguida também sair da sua vida. Abandonei minha casa e fiquei sem saber o que fazer da vida.

 

Tinha minha aposentadoria que havia apressado em consolidar por causa da condição financeira de continuar pagando por mais tempo, deixando então de receber um valor mais significativo hoje, para continuar vivendo com mais dignidade. Vale registrar que se minha família (minha mãe e uma irmã) até hoje não me ajudasse pagando meu plano de saúde e complementando minha subsistência, penso que nem teria como saber que existia um movimento nacional lutando pelos nossos direitos.

 

  Por causa de uma separação traumática, embora acontecendo em seguida o divórcio consensual, adicionado a tantos outros problemas já existentes, precisei de ajuda psiquiátrica, psicólogo (sessões de psicoterapia) e medicação controlada, que até hoje ainda me é administrada, tanto para ajudar a sair de um “transtorno de estresse pós-traumático” adquirido pela separação como para ajudar a administrar a conviver da melhor forma com todas as conseqüências advindas e ocasionadas pela minha adesão coercitiva ao PDV.

 

Meu” imóvel, comprado através da PREVI, se deteriora a cada dia. Vivo na expectativa da chegada de um oficial de justiça, haja vista a falta de condição para continuar pagando tampouco preservando; sofro ameaças de advogados contratados pela PREVI para continuar aterrorizando e ameaçando tomar o único lugar que possuo para morar.

 

   Entretanto, reluto ainda pensando recuperar uma reparação por tantos danos, embora alguns irrecuperáveis, porque não se reverte a natureza humana quebrantada pela agressão moral e desumana que fomos obrigados a vivenciar. Mas sabemos que o Banco e a PREVI sabem que nada disso teria acontecido, nada estaríamos devendo se não houvessem roubado nossos empregos, aposentadoria, plano de saúde, financiamento imobiliário, violado nossos direitos humanos.

 

 

Sobre todo negócio de injustiça, sobre boi, sobre jumento, sobre gado miúdo, sobre veste, sobre toda coisa perdida, de que alguém disser que é sua, a causa de ambos virá perante os juízes; aquele a quem condenarem os juízes o pagará em dobro ao seu próximo.

E ainda mesmo que houvesse eu afirmado ao pecador que ele haveria de morrer, se, renunciando ao mal, se ele devolver o penhor que exigiu, se restituir o que roubou, se observar as leis que dão vida e se se abstiver de todo o mal, ele viverá e será preservado da morte.

(Êxodo 22: 3; 9 e Ezequiel 33: 14-15) 

MARIA DA PENHA MATTOS CAVALCANTE – Matrícula BB 6.864.150-8

19 19UTC outubro 19UTC 2009

  Esta é a minha história, sou Maria da Penha Mattos Cavalcante, matrícula no BB – 6.864.150-8 – última agência trabalhada: CESEC Comércio – Salvador – BA (1940-2), posse no banco: 12/05/1982, saída no PAQ: 01/06/1997, atualmente resido em Salvador-BA.

 

  Ano de 1981, é divulgada a abertura do concurso para o Banco do Brasil, um sonho de emprego e estabilidade, tudo que eu almejava na vida. Recém casada e com apenas 15 dias de resguardo da minha primeira filha, me inscrevi e fui fazer a prova para o BB. Ainda lembro das palavras de incentivo do meu esposo e da minha família, você é muito inteligente, vai passar, acredite, este não é o seu sonho?. Então eu fui mesmo com o incomodo e sentido dores e desconforto para sentar naquela sala, fiz a prova e consegui passar, que maravilha, tudo estava dando certo, todos os meus desejos estavam se realizando.

  

 

  Tomei posse em maio de 1982, apesar das dificuldades iniciais, pois havia sido lotada para o interior da Bahia, Inhambupe, e o meu Marido teria que continuar em Salvador, sabíamos que o sacrifício inicial era para um futuro melhor. Em Julho de 1983, nasce o meu segundo Filho, Ele nascera com problemas respiratórios e o clima da Cidade agravava ainda mais suas crises, sem ter suporte para o atendimento na Cidade, tive que pedir ajuda a um funcionário do BB, que prontamente me trouxe a Salvador as presas para atendimento de urgência do meu Bebê.

 

  Fui ao serviço Médico do BB e me transferiram imediatamente para Salvador, lotada agora no CESEC Comércio, e meu Filho pode ter todo o acompanhamento médico necessário.

 

No CESEC recebi todo o apoio da Família BB, o local de trabalho era ótimo, até começarem com o terrorismo, CESEC vai fechar, vão ser todos transferidos e não sabíamos para onde, o CESEC esta com excesso de funcionários, o CESEC vai ser divido em dois, alguns funcionários irão ser transferidos para o novo CESEC, fecha o outro CESEC que mal tinha sido inaugurado, fecha agência, funcionário chegando transferido, sem saber se iriam ficar ali, ou se iriam ser transferidos novamente”.

Nós trabalhávamos sem saber o que iria acontecer no dia seguinte. Estava no cargo comissionado, minha avaliação tinha sido ótima, tinha sido indicada para o cargo de Supervisão, mas um dia, sem ser comunicada por ninguém, não era mais comissionada, a comissão seria da colega do outro CESEC que veio transferida com a carteira. Onde estavam os meus chefes que quando me deram à comissão me chamaram, conversamos, e assumi a carteira, e agora? Simplesmente você não é mais a dona da carteira?

 

  E agora?  Perguntei-me, e as minhas dívidas, quem iria pagar o meu cartão, o cheque-ouro, etc. Entrei em desespero, meu marido tinha sido demitido na privatização da Telebahia, eu tinha perdido minha comissão, e agora o que faríamos? Estava com dívidas e no momento a lei no banco era para que todos mantivessem suas contas sem estouro e pagassem seus cartões de créditos, por que este era um dos motivos que levaria a demissão. No banco trabalhávamos pensando em quem seria o próximo, quem seria transferido ou colocado a disposição, o CESEC estava superlotado, em Salvador não tinha vaga, só se falava em vagas em agência longe, em outros estados.

 

  O meu último ano do banco foi muito traumático, presenciei o suicídio de um colega, a morte de uma outra colega que estava sendo colocada à disposição, a loucura de vários colegas, eu não desejava isto para mim, tinha filhos pequenos que precisavam de mim, não queria enlouquecer ou chegar ao extremo de cometer um suicídio por causa  das dividas.

O banco estava dando um VP, um vencimento-padrão para cada ano, mais todas as vantagens da PREVI, para quem aderisse ao PDV, eu atolada em dívidas, o cheque-ouro estourado, o ourocard me cobrando, não pensei duas vezes, saí  no meio da pressão pensando que me daria bem, já que o banco disse que daria suporte, cursos para quem fosse abrir seu próprio negócio, ILUSÃO, ele nunca entrou em contato ou me ofereceu um curso, e não recebi tudo que o banco disse que receberia.

Senti-me traída, abandonada, e os meus amigos, a quem se diziam a minha família, onde estavam? Estava com tanta aversão ao Banco, que nem entrada na justiça trabalhista para pedir a revisão dos meus cálculos eu dei, eu não queria ouvir falar no Banco do Brasil. Passei uma borracha no período que me intitulei funcionária do BB, não freqüentava a AABB que era o clube que meus filhos amavam, me afastei de todos os meus amigos só por que eram funcionários do BB, troquei meus filhos de escola, eles estudavam na Cooperativa Satélite (cooperativa formada por funcionários do BB), eu só queria esquecer que um dia eu tinha sido funcionária do Banco do Brasil, só queria me sentir bem.

 

  A desilusão foi tanta, que nunca mais entrei numa agencia do BB para nada, se tivesse que passar em frente a uma, eu atravessava a rua, contanto que eu não tivesse contato algum com o BB. Minha conta no banco não sei como está, nunca mais movimentei e também não fui à agência para encerrar, as ações, é eu ainda possuo as ações do BB, mas não sei como estão,  e o lucro só Deus sabe onde está sendo depositado. Governo, BB e PREVI me massacraram, quase acabaram comigo e com toda minha família.

Minha vida depois do banco, não foi ótima, porém não fiquei louca. Tinha uma casa em um condomínio fechado ao lado da AABB em um bairro nobre aqui em Salvador que tive que vender, hoje moro na Boca do Rio, um bairro popular, abrimos uma Panificadora que não deu certo, eu e  meu marido tentamos uma colocação no mercado de trabalho, porém nada conseguimos por que somos velhos para o sistema financeiro, apesar de possuirmos nível superior, e vários cursos de especialização. Meu marido foi trabalhar com táxi, e eu fiquei com os serviços domésticos.

 

 Há quatro anos em 12/10/2005, meu marido sofreu uma AVC com PCR, onde ficou em coma internado na UTI do Hospital Geral Roberto Santos, de lá para cá tenho enfrentado muitas dificuldade, mas não me dei por derrotada, era capaz de vencer e se Deus estava do meu lado, venceria e passaria por mais esta dificuldade, ele faleceu oito meses depois, neste período e até o presente momento para sustentar a minha família (eu e três filhos) dou aula de reforço em casa.

Agora tenho esperança de que a justiça será feita, nada para Deus fica impune.

 

 

O SENHOR DEUS DIZ:

Não prejudicareis a viúva e o órfão;

Despedias as viúvas com as mãos vazias, quebravas os braços dos órfãos;

As lágrimas da viúva não correm pela sua face, e seu grito não atinge aquele que as faz derramar?

Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem. Respeitai o direito, protegei o oprimido; fazei justiça ao órfão, defendei a viúva.

(Êxodo 22, 22; Jó 22,9; Eclesiástico 35,18; Isaías 1,17)

NEYDE SCHRAMM BARREIRA BARBOZA – Matrícula BB 7.498.510-8

16 16UTC outubro 16UTC 2009

 

Em 19.03.1980 comecei a trabalhar no Banco do Brasil, agência Centro-Rio (RJ), na seção de Cheque-ouro. Foram 15 anos, percorrendo várias seções e agências do Banco. Fiz muitos amigos lá dentro e até hoje sinto falta da camaradagem que havia entre nós.

 

  Até que começaram os boatos das demissões em massa. A partir dali, parecia que todos desconfiavam de todos, que cada um só se preocupava em preservar seu lugar e o ambiente que antes era tão sadio foi ficando cada vez mais insuportável.

 

  Na época eu estava lotada na agência Centro Pelotas (RS), na Rua Lobo da Costa, trabalhando na seção Cambio.  Um dia o chefe me comunicou que a partir do próximo mês todos os funcionários (sem exceção) teriam que ir trabalhar na rua (comércio, indústrias, escritórios, etc.) captando clientes para abrir conta no BB e que, também,haveria uma cota para cada funcionário cobrir.

 

 Entrei em pânico, porque naquela época já havia funcionários (principalmente funcionárias de boa aparência fazendo esse tipo de serviço) e os relatos me deixavam apreensivas, por causa do tipo de assédio a que elas eram submetidas, no mínimo convites para almoços e jantares, e etc. que poderiam vir depois! Então respondi para meu chefe que eu havia feito concurso para ESCRITURARIA e que esse é um cargo para serviço interno e não externo. E o mesmo me sugeriu que eu aderisse ao PDV (q foi o primeiro, em 1995), antes que eu fosse demitida sem as “vantagens” que eu teria direito naquela ocasião.

 

  Ora, eu estava com meu marido doente (com câncer) já necessitando da minha presença e na época eu pensei que seria melhor então aderir àquele plano de PDV e ficar mais livre para cuidar dele (que infelizmente veio a falecer quatro anos depois). Durante a doença dele, ele não tinha como trabalhar e já eu estava com problemas para pagar a prestação do imóvel que adquiri junto a PREVI. Nisso procurei uma advogada que entrou com pedido de revisão das prestações do imóvel (pois no contrato reza que seriam ajustadas de acordo com a minha aposentadoria).  Ora, se eu recebo apenas aposentadoria pelo INSS, como poderiam minhas prestações ser reajustadas igual à daqueles que estavam na ativa?  Mas o juiz não entendeu meu problema e ai eu fui forçada a parar de pagar, porque o que eu recebia de aposentadoria não era nem o valor da prestação do imóvel.

  Nesse meio tempo, cheguei a alugar o imóvel e durante um ano e meio consegui pagar as prestações, mas depois não consegui mais alugar o imóvel pelo valor das prestações e ainda resisti alguns meses, eu mesma complementando a prestação com minha aposentadoria, pois morávamos em um sítio no interior de São Lourenço do Sul.  Mas, eu sempre vendo que apenas eu estava adiando o problema e que um dia não daria mais para continuar daquela maneira.  Foi quando o inquilino saiu e eu não consegui mais alugar o imóvel por um valor que desse para eu complementar as prestações com minha aposentadoria.

 

Procurei minha advogada e comuniquei a ela que eu não poderia mais pagar as prestações a partir do próximo mês.  Nisso entramos com uma ação solicitando devolver o imóvel e assim terminar com aquele saldo devedor monstruoso.  Na época o imóvel foi avaliado a mando judicial por 67 mil reais e o saldo devedor apresentado pela PREVI era de 220 mil reais.

 

 Com o falecimento do meu marido, eu fiquei sem pensão nenhuma da parte dele, porque era vendedor autônomo e nunca se preocupou em contribuir com o INSS e nunca fez seguro de vida porque era muito jovem (faleceu com 49 anos de idade).

 

Um mês depois do falecimento dele, exatamente no dia da 1a audiência da ação de devolução do imóvel, fui citada dentro do fórum (na sala de espera da audiência) com uma ação da PREVI de cobrança daquele saldo devedor monstruoso com o prazo de 24 horas para ser quitado.

 

  Minha ação de devolução ficou então arquivada e seguiu-se aquela da cobrança do saldo devedor, porque a PREVI cobra o valor do financiamento imobiliário abusivo.  No primeiro leilão não compareceu ninguém pra arrematar o bem, mas no segundo leilão apareceu a própria PREVI e fez o único lance o qual foi considerado pelo Juiz como preço “vil”.

 

A intenção da PREVI seria de arrematar o imóvel (que tinha sido avaliado por 67 mil) por 37 mil e seguir me cobrando a diferença daquele saldo devedor monstruoso de R$ 220 mil, descontando então os 37 mil.  Mas o Juiz notou a má-fé da PREVI e embargou a tentativa macabra. Tudo isso tem sido motivo de estudo no meio jurídico (como constatei num site que encontrei por acaso quando pesquisava na Internet).

Para resumir, tive ganho de causa em 1a e 2a instâncias e confirmado no STF (Brasilia).  A sentença é que não devo mais nada à PREVI e que o imóvel é que é a garantia da dívida.  Nisso, o meu processo de devolução foi desarquivado, e hoje está na seguinte posição: já ganhei em 1a e 2a instância, mas a PREVI entrou por ultimo com um recursos e até agora não foi julgado. 

 

A PREVI não quer aceitar de maneira nenhuma a devolução do imóvel, porque assim ela fica sem poder me cobrar a diferença do saldo monstruoso que ela arquitetou contra todos os mutuários que saíram em PDVs, PAQs, etc., demitidos do BB aos quais ela nunca ofereceu renegociação, somente renegociou, diminuiu em até 70% as prestações e saldo devedor aos funcionários e aposentados do Banco do Brasil, aos demitidos executou, despejou, quis tirar tudo que tinham e não tinham, cobrando o valor do financiamento imobiliário.

 

Depois da morte de meu marido tive que vender o sitio onde morávamos para quiar várias dividas que se acumularam naqueles anos todos.  E como o imóvel estava desocupado e eu obrigada a pagar condomínio e impostos do mesmo, voltei para morar no imóvel, que é a única moradia que possuo e caso precise devolver o mesmo, terei que começar a pagar aluguel.

 

  Tenho sobrevivido nos últimos anos lecionando inglês particular para ajudar nas despesas da vida modesta que levo como viúva (61 anos de idade), sem filhos e longe da minha família. Porque minha família toda mora em Fortaleza (CE) e como eu casei com um gaúcho de Pelotas, vim em 1994 e nunca mais consegui voltar para morar perto da minha família, justamente por causa do impasse desse imóvel com a PREVI (que me colocou como Fiel Depositária do mesmo). Ou seja, não posso vendê-lo, alugar nem emprestar o imóvel.  Sou responsável pelo condomínio e impostos. E como poderia arcar com outras despesas em Fortaleza para estar perto de meus familiares?

 Agora minha ultima esperança antes de morrer, seria ver a Justiça ser feita para nós que fomos tão cruelmente prejudicados e condenados sem direito à defesa.  Confio primeiramente em Deus, que é o Juiz Supremo, e também nesta Corte Interamericana de Direitos Humanos, que é considerada mundialmente como imparcial.

 

Pelotas, 11 de outubro de  2009.

A nenhuma viúva nem órfão afligireis.

Maldito aquele que perverter o direito do estrangeiro, do órfão e da viúva.

Quando alguma pessoa pecar, e transgredir contra o SENHOR, e negar ao seu próximo o que se lhe deu em guarda, ou o que depôs na sua mão, ou o roubo, ou o que retém violentamente ao seu próximo; ou que achou o perdido, e o negar com falso juramento, ou fizer alguma outra coisa de todas em que o homem costuma pecar, será, pois, que, porquanto pecou e ficou culpada, restituirá o roubo que roubou, ou o retido que retém violentamente, ou o depósito que lhe foi dado em guarda, ou o perdido que achou, ou tudo aquilo sobre que jurou falsamente; e o restituirá no seu cabedal e ainda sobre isso acrescentará o quinto; àquele de quem é o dará no dia de sua expiação.

E todo o povo dirá: Amém

(Exo.22:22; Deu 27:19; Levítico: 6:2:5)

GLAUCO ANTONIO DIAS – Matrícula BB 3.804.660

12 12UTC outubro 12UTC 2009

RELATO SINTÉTICO DA MINHA DEMISSÃO DO BANCO DO BRASIL

 

  Eu trabalhava no Cesec Currais Novos (RN) quando começou esse assunto de demissão voluntária no Banco do Brasil.

 

Na verdade, antes de tudo, lembro-me de uma campanha infame no governo de Fernando Collor sustentando que os funcionários do Banco do Brasil eram marajás, uma aberração, quando sabemos que na época o salário médio dos funcionários girava em torno de apenas mil reais.

 

Assim constituiu-se um plano maquiavélico para demissão em massa dos funcionários, apenas com o intuito de roubar nossa poupança para aposentadoria; o nosso fundo de pensão (depois de 30 anos foi descoberta a fraude no decreto lei 81240/78), que causou toda essa vilania, matança, roubo, dos funcionários dos bancos federais e das estatais.

 

Então começou em todo o Banco do Brasil a pressão psicológica de que o Banco dava muito prejuízo e necessitava urgentemente readequar seu quadro de funcionários, partindo para uma redução em massa em torno de 40.000 funcionários, senão o banco quebrava, era o que se preconizava na época.

 

Vieram então as informações internas incentivando os funcionários a pedirem demissão de forma “voluntária”, com incentivo financeiro e apoio logístico após a demissão. Depois vieram as ameaças dos administradores, com transferências para regiões inóspitas, perda de comissão, classificação de “elegíveis” para demissão, sem nenhum processo administrativo, apenas acusações de incompetência, negligência, coisa que antes não existia na instituição, o que gerou a circulação de um dos boletins internos do banco chamado de GAREF, editado em 11.07.1995, com a opinião de um dos diretores do banco, conforme abaixo:  

                                       PDV E DRH 30 

“TRANSCREVEMOS, ABAIXO, A ÍNTEGRA DO VOTO NO QUE SE REFERE AS NOVAS DOTAC0ES PROPONHO O QUE SEGUE:

- QUE SE RECOMENDE AO CONSELHO DIRETOR QUE DETERMINE AOS ADMINISTRADORES QUE SE ABSTENHAM DE PRESSIONAR FUNCIONÁRIOS PARA QUE ADIRAM AO PROGRAMA; - QUE SE PRORROGUE O PRAZO PARA ADESÃO EM MAIS 30 DIAS, VISTA A FORMA AÇODADA COMO O PROCESSO ESTAH OCORRENDO;

- QUE ESTE CONSELHO DELIBERE PELA FORMAÇÃO DE COMISSÃO DE ALTO NÍVEL PARA GERENCIAMENTO DO PLANO, COMPOSTA POR PESSOAS EXPERIENTES NA AREA DE RECURSOS HUMANOS, EM VISTA DA FORMA ATABALHOADA COMO VEM SENDO IMPLANTADO”.

 

“NADA TENHO CONTRA A IMPLANTAÇÃO DE UM PROGRAMA DE DEMISSÕES VOLUNTÁRIAS, QUANDO EFETIVAMENTE VOLUNTÁRIAS, E NÃO DE FORMA COERCITIVA COMO SE CONFIGURA HOJE. ACHO MAIS. O BANCO DEVE ABRIR O PROGRAMA PARA OS QUE DESEJAREM PEDIR DEMISSÃO, HOJE, INDEPENDENTE DE ESTAREM OU NÃO ENQUADRADOS COMO “ELEGÍVEIS”. QUE O BANCO SUSPENDA IMEDIATAMENTE A IMPLANTAÇÃO DO SISTEMA DRH…”

 

Mesmo com o apelo do diretor, a pressão e a ânsia pela adesão ao programa se intensificaram, chegando ao ponto de nos darem apenas 15 dias para tomar uma decisão tão importante, que hoje sabemos custou a vida de centenas de funcionários, que só de suicídios foram catalogados 28, pelo menos 02 dentro das dependências do banco, afora as milhares de famílias destruídas, com alcoolismo, depressão, infartos, avcs, derrames, etc.

 

         

Lembro-me perfeitamente, quando meu chefe chegou para mim e disse: Glauco! Não tem jeito, “O Cesec vai fechar e a transferência para lugares inóspitos é real, ou se transfere ou vai no PDV” E foi o que aconteceu,de todas os colegas que conheço, quem não aderiu foi transferido para longe, era uma guerra psicológica terrível contra os funcionários.

Consumada a minha demissão sem justa causa do Banco do Brasil, dediquei-me ao comércio, e iniciei um doloroso trabalho de comprar e vender confecções em atacado, porém, sem nenhum apoio, nenhuma orientação e conhecimento, pois o Banco não cumpriu com o que prometera em nos habilitar na nova atividade.

 

Não obtive êxito e em pouco tempo fali e passei então a vender todo o meu patrimônio, conseguido com muito esforço durante o período trabalhado; como não era muita coisa, em pouco espaço de tempo, acabou, como acabou plano de saúde, colégio pago, feira farta, contas em dia, lazer, seguro de vida, casa, carro, etc. Assim, naturalmente, veio a depressão, angústia, desespero, e, auto-estima no fundo do poço, conflitos familiares.

 

  Imaginem, um homem que trabalha desde os 15 anos, estuda e é aprovado em concurso público, concorrendo com milhares de candidatos, é aprovado e assume o emprego dos seus sonhos, e nessa nova fase de sua vida, torna-se funcionário de carreira em uma das instituições mais cobiçadas do país, constitui família e dá a essa família condição digna de viver.

 

    De repente, como se fosse um raio ou num passe de mágica é obrigado a pedir demissão do emprego, que outrora tanto batalhou para conseguir. Foi o que aconteceu com as demissões “coercitivas” (usando o termo do diretor do Banco do Brasil).  É muita injustiça.

 

   Daí em diante foram anos e anos vivendo totalmente ao amparo de familiares, biscates, cousas incertas. Queria ver como reagiriam esses psicopatas do poder, autores desse massacre, se ficassem em nossa situação. Após 14 anos, ainda vivo a duras penas, com ajuda da família (bendita família) e de biscates.

 

    A Deus, principalmente, devemos toda a nossa vida. Nele encontramos paz, saúde, abrigo, sustento, alegria, conforto e principalmente vida, pois se não fosse o Senhor, seria impossível viver após essa trágica demissão. E por confiar neste Deus, é que aguardo justiça, sim, ela virá! Pois a justiça de Deus nunca falha.

 

“… todos os atos  de justiça do homem é como trapos da imundícia”.

              (Is. 64:6)

 

             “SOMENTE A DEUS A GLÓRIA” 

 

Natal (RN), 07 de outubro de 2009.

Glauco Antonio Dias

PDV/1995 – Natal RN

JOSÉ CARLOS DE OLIVEIRA - Matrícula BB 5.367.366-2

5 05UTC outubro 05UTC 2009

   Moro em Itabaiana (SE). A última agência do BB onde trabalhei foi a 2312-4 – Moita Bonita (SE). Fui demitido sumariamente no dia 12/07/1999, por não ter aderido ao PDV de 1995. Eu gostaria que o Grupão PDV-BA - MNDBB encaminhasse este meu testemunho para ser divulgado no Jornal.

  No ano de 1995, por fazer parte da listas dos “elegíveis”, fui pressionado a pedir demissão, aderir ao PDV, porém meu irmão trabalhava comigo na mesma agência, por compaixão de mim, pediu sua demissão no meu lugar.

  Por eu não ter aderido ao PDV, o gerente da agência me entregou à Superintendência em 1998, e este por ter me entregado, foi elogiado pelo superintendente numa reunião lá na SUPER. Logo em seguida, em dezembro de 1998, o Banco me colocou como excedente, e na semana seguinte, deu posse a um colega vindo do SESEC/AJU para eu lhe ensinar o serviço e me substituir.

   Continuei excedente até 12/07/99, quando recebi a punição definitiva por não ter saído no PDV de 1995. Fui demitido sem aviso prévio, sem o incentivo do PDV, sem justa causa, sem processo administrativo, sacando apenas 98 % das contribuições pessoais. Depois, levei seis anos com uma causa na Justiça contra o Banco e fui derrotado porque minha advogada perdeu prazo de recurso. Hoje continuo sofrendo as conseqüências de ter sido enganado pelo Banco e pela PREVI. Não esqueço, da dor que passei, vendo meus filhos querendo continuar estudando no colégio particular e eu sem ter condições de pagar.

  A dor e a humilhação eram insuportáveis, pois diante do diretor, cada início de ano, enquanto lhe pedia um desconto nas mensalidades, não conseguia segurar as lágrimas que saltavam dos meus olhos. Não esqueço de ver meus filhos se preparando para o vestibular, e eu pedindo a Deus para eles desistirem, porque sabia que a continuação dos seus estudos seriam para mim ainda mais compromissos financeiros que eu não podia arcar. Tudo o que passei não foi nada ante o que vejo acontecendo com colegas com situação financeira ainda pior que a minha.

   Por exemplo: Soube que o colega Renan, que trabalhou comigo em Porto da Folha-Se, deu um tiro na cabeça dentro da agência de Lagarto(Se), porque estava ameaçado de perder seu emprego.

  Vi o colega José dos Santos, daqui de Itabaiana-Se, se enfartar fatalmente no meio da feira porque tinha acabado de perder seu emprego. Vejo o colega Luiz Tavares, também daqui de Itabaiana, levar um tiro de escopeta do seu filho por motivos financeiros. Vejo o colega João Batista, de Aracaju, que me disse recentemente não poder mais ouvir falar em cuscus com ovo, pois esta é sua comida, três vezes ao dia, porque nunca mais pôde comprar feijão e carne.

 Vejo os colegas Macedônio e Rodolfredo, trabalharam comigo em Porto da Folha (SE), hoje estão sendo despejado de suas casas pela CARIM, porque não tiveram condições de continuar pagando as prestações, sendo também vítimas do maquiavélico vício oculto do Banco do Brasil junto com a PREVI.

  Soube que há um colega lá em N. S. da Glória-Se, por ter perdido o emprego foi abandonado pela família e está morando na rua, como louco sujo, bebendo cachaça e mendigando.

 Ora, se aqui vejo tanta gente com testemunho, situação ainda pior do que a minha, imaginem neste Brasil por aí afora.

Então olhei de novo para toda a injustiça que existe neste mundo.

Vi muitos sendo explorados e maltratados.

Eles choravam, mas ninguem os ajudava.

Ninguém os ajudava porque os seus perseguidores tinham o poder do seu lado. (Eclesiastes 4:1)

Um governo continuará no poder enquanto for humano, justo e honesto. (Provérbios 20.28)

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