HISTÓRIAS DOS DEMITIDOS DO BB

Espaço aberto às histórias dos Demitidos do Banco do Brasil, aos depoimentos de familiares e amigos dos demitidos falecidos ou desaparecidos, e aos colegas aposentados precocemente para sobreviver às demissões abusivas, os quase Demitidos do BB.

ALEXANDRE DE PAULA BRAQUEHAIS Matr. BB 0.439.706-1

28 28UTC agosto 28UTC 2008

Depoimento de Leandro Schmaedeke

A ANABB divulgou lista de credores não localizados de Ações IR sobre Licença-prêmio, férias, abonos, etc.

Confrontei meu cadastro de demitidos com a relação de credores da ANABB. O primeiro nome da lista que encontrei foi do meu amigo e colega demitido ALEXANDRE DE PAULA BRAQUEHAIS. Trabalhamos na mesma agência, saí no PDV, ele no PAQ. Tinha certeza, ele foi associado da ANABB, poderia ter outras ações, IR, FGTS, com a ANABB. Também teria novidades sobre os PL’s de reintegração.

Não localizei o telefone do Alexandre na lista on-line, liguei para Elizabeth de Paula Braquehais, talvez parente. Alguém atendeu e eu perguntei se conhecia o Alexandre, eu precisava falar com ele.
Respondeu, “espera aí, vou chamar a mãe dele”.

A Sra. Elizabeth, senti pela voz comovida e emocionada, perguntou: “O que o senhor quer com meu filho Alexandre?”

Respondi: “Meu nome é Leandro, trabalhei com o Alexandre no Banco do Brasil, fui demitido no PDV, 1995, ele um ano depois, noutro programa, o PAQ, 1996. Tenho notícias das ações judiciais, direitos dele, também tenho informações acerca de projeto de reintegração ao BB”.

A Mãe disse: “Meu filho Alexandre faleceu em abril 2007. Depois que saiu do banco nunca mais se recuperou. Depressão, alcoolismo, problemas cardíacos e depois câncer. Morreu no IJF, problema cardíaco e câncer".

"Eu nunca me conformei, não quero ouvir falar de Banco do Brasil, o senhor está falando de direitos dele, por favor, fale com a esposa e dois filhos dele, vou informar nome e telefone da viúva”.

Arrasado, aturdido, entristecido, liguei para a Christina, viúva do Alexandre, atendeu ao telefone a doméstica, disse que trabalhava há onze anos com a família, acompanhou de perto todo o sofrimento do Alexandre, escondia facas e objetos cortantes para evitar o suicídio. Ouviu suas lamentações: “por que saí do banco, por que me demitiram, agora o que vou fazer, como vou sustentar minha família?"

Ela acompanhou o suplício do Alexandre, da família do Alexandre, durante longos dez anos, até o final. Disse que a Christina, provedora durante todo este tempo, estava no trabalho, que eu ligasse mais tarde.

Liguei mais tarde para a Christina, confirmou tudo que eu ouvira, disse mais: o valor recebido do banco não foi uma “bolada, mal cobriu as dívidas, o Alexandre trabalhou somente nove ou dez anos no BB;  ele desistira da Faculdade de Ciências Atuariais, tentara Computação, desistiu também; ela não suportava mais ouvir falar em Banco do Brasil, tanto ouviu durante dez anos de sofrimento.

Pedi seu e-mail para enviar mensagem sobre as ações, direitos do Alexandre, agora da família. Disse-me que ainda não fizera o inventário, por falta de recursos.

Eu tinha visitado o Alexandre logo após a demissão, soube que estava com problemas. Ele tinha contornado, escapado da demissão no PDV, estressante, havia tirado um período de licença para tratamento psiquiátrico e, quando retornou ao trabalho, a “meta” do PAQ na agência era de duas demissões.

No PAQ não teve jeito, ele foi escolhido para a demissão, pressionado, jogado contra os demais funcionários da agência, porque não teria participado das reuniões da agência, aquelas de fim de tarde até a noite, sem pagamento de hora extra. Na verdade ele não participava das reuniões porquanto cursava, à noite, a Faculdade de Ciências Atuariais.

O Alexandre me disse que ingressara com ação judicial para reintegração por conta da demissão arbitrária, estava doente, sob tratamento psiquiátrico, quando foi compelido a pedir demissão.

Algum tempo depois o Alexandre veio até minha casa, ficava a dois quarteirões da agência onde trabalhávamos, trazia uma requisição de talão de cheques, disse que não tinha coragem de entrar na agência, pediu para que eu fosse buscar.

Respondi que eu também nunca mais entrara na agência por outros motivos, mágoa, raiva, indignação.

Enviei minha secretária doméstica, procurasse minha esposa, ainda trabalhava na agência, para fornecer o talão. Voltou com a informação: talonário bloqueado.

O Alexandre ficou transtornado, tinha dinheiro na conta, nunca tivera cheque devolvido, perguntou: "seria por causa da ação de reintegração?" Respondi que não sabia!

Concluiu, "vou retirar a minha ação de reintegração contra o banco, não posso ficar sem meu talonário de cheque-ouro do BB.

O Alexandre foi assim, nunca admitiu perder sua família BB, ter sido rejeitado, não ter mais seu sobrenome BB, seu emprego BB, ser cliente do BB, definhou e morreu por causa disso.

Deus o tenha, amigo e colega Alexandre. Deus proteja tua família, sofreu contigo e ainda sofre.

Deus nos possibilite ajudarmos tua família, tentarmos compensar o irreparável.

Fui autorizado pela Família do Alexandre a contar esta história, senão, seria mais uma história não contada dos demitidos do BB.

Leandro Schmaedeke

1 Comentário »

  1. Comentário por Edmond Braquehais — 14 14UTC julho 14UTC 2009 (23:57)

    A demissão do Alexandre foi criminosa,era um excelente funcionário. Tinha muita cordialidade com os clientes e na função de caixa se destacava pela eficiência do atendimento, sendo mais rápido que a maioria. A demissão co toda certeza contribuiu muito para a sua doença. Pouco tempo após sua morte Alexandre foi para assumir emprego no Tribunal Regional Federal, no qual passou em concurso.

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