IVAN MANGEON WERNECK - Matr. BB 4.492.320-1
28 28UTC agosto 28UTC 2008
Aposentado, quase Demitido do BB:
Tenho consciência de que o plano pelo qual me autodefenestrei do Banco não se enquadra na categoria "pé-na-bunda", porque se deu mediante "demissão a pedido"… Porém, reservo-me o direito de achar que fui constrangido, quase coagido, a "tirar o time de campo".
Carioca, 58 anos, moro em Brasília desde 1975, trabalhei no BB de 04/02/1971 a 17/04/2000, então - POR LIVRE E ESPONTÂNEA COAÇÃO - aderi ao Plano de Aposentadoria Antecipada da PREVI. Por que digo que foi "por livre e espontânea coação"? Explicarei mais adiante.
Antes, porém, gostaria de passar alguma ‘trívia’ a meu respeito: minha família está no Banco há exatamente 105 anos, ou seja, mais da metade do tempo de existência da Instituição. O decano da família foi meu avô, Américo das Chagas Werneck, que tomou posse em 1º de abril (velho esperto…) de 1903, sendo, portanto, fundador da nossa PREVI, que então tinha o nome de Montepio. Desde então, jamais os quadros do Banco deixaram de ter um parente meu - além de mim próprio, é claro. Meus tios Deodoro e Lauro Werneck, meu primo Pedro Américo e um outro primo, Ruy Claudio Werneck, o Nico, que ainda se encontra na ativa em Joinville (SC). Não sei se outros virão, creio que Nico vai ser nosso último e derradeiro representante…
Quando comecei a trabalhar no BB - foi meu único emprego -, acreditava que, apesar da disciplina e da estrutura "militaresca" em que o Banco funcionava, eu seria tratado com justiça e equanimidade, as cobranças e exigências seriam normais, como em qualquer empresa, haveria oportunidade de crescimento e desenvolvimento profissional.
Não tive decepções quanto a isso até o início do governo de Fernando I, o Affonso. Passei pelo FUNCI e pelo DESED, adquiri muita experiência e conhecimento em RH (agora virou Gestão de Pessoas), tive uma ascensão funcional relativamente rápida para alguém da minha idade e tempo de serviço. Até que (ai!) começou a famigerada "reengenharia", que no Banco acabou virando um monstrengo tipo frankenstein, uma vez que veio misturada aos conceitos de empregabilidade, otimização de serviços, ajuste/adequação de quadros etc. Após um breve período de bonança, durante o governo Itamar Franco, no qual o PCC e a estrutura salarial, achatados cruelmente pelo nefando Lafaiete Coutinho, foram restabelecidos e tivemos um ganho considerável à época.
Foi então que, para nossa desgraça, iniciou-se a regência de Fernando II, o Henrique, que retomou fielmente a aplicação do doloroso receituário do FMI e do maldito - para nós do 3º Mundo, é claro - Consenso de Washington. Aí veio o flagelo - tipo Opus Dei - da gestão (?) Ximenes-Camargo. Lembra-se do pobre Ben-Hur remando nas galés das trirremes romanas ao som daquele baticum interminável? Foi mais ou menos por aí, não foi? E não fomos só nós que sofremos, minha irmã perdeu quase metade do salário na Imprensa Nacional… Por que e para quê, são perguntas que continuam sem querer calar. Será que os franceses, por exemplo, estão errados ao treinar e remunerar muito bem seus quadros de empresas públicas? Será que no Terceiro Mundo o certo mesmo é equilibrar o chicote com o torrão de açúcar (vade retro, Lafaiete)?
No final de 1993 tomei uma das piores decisões da minha vida: aceitei o convite para trabalhar como assessor (ou seria assestador?) no falecido DEASP/PRODI, a sigla que inspirava certo terror no Banco, juntamente com a INGER (depois AUDIT). Estive no "olho do furacão" do PDV, testemunhei um sem-número de injustiças como membro de um certo "comitê de ética" em reuniões em que muitas vezes ouvi risadas e piadinhas de humor negro, quando relatava inquéritos administrativos; tive de processar milhares de demissões "por acordo" - e muitas sem acordo nenhum, com base unicamente na antipatia de gerentes e superintendentes por esse ou aquele empregado,
Talvez por isso minha depressão crônica e meu nível de estresse chegaram ao que os ingleses chamam de ‘breakdown’, o que me levou a buscar tratamento psiquiátrico/psicólogico, com uso contínuo de antidepressivos e ansiolíticos (que chamo de "lobotomia química") e até algumas tentativas de suicídio, que quase me levaram à internação. No período de setembro de 1997 e o início de 2000, estive muitas vezes afastado em licença-saúde. Chegou-se a cogitar de minha aposentadoria por invalidez, mas o INSS não concordou, dizendo que, se me aposentassem com aquele CID, teria de aposentar milhões de segurados. Que raio de país é esse, afinal?
Com tudo isso que narrei, assim que completei 50 anos, a idade mínima para adesão ao Plano de Aposentadoria Antecipada, meu chefe me chamou e disse que seria melhor para mim e para o Banco que eu aderisse ao Plano, porque a minha vaga já tinha sido preenchida e eu teria de procurar outro departamento para trabalhar, sob pena de ficar no Posto Efetivo. Ora bolas, em sã consciência, qual o chefe ou gerente me comissionaria nas condições em que me encontrava, em tratamento e tendo que tomar remédios controlados que me faziam sentir, com o perdão da expressão, "a bosta do cavalo do bandido".
Algum tempo após ser desligado, constrangidamente, atendendo à "sugestão" do meu gerente executivo - pessoa finamente educada e que desfruta até hoje de minha total simpatia -, confesso que chegou a passar-me pela mente a idéia de acionar o Banco por danos morais e prejuízos financeiros. Afinal, estava saindo de uma série de licenças-saúde, o quadro depressivo continuava o mesmo, pois se trata de distimia, depressão crônica, incurável, muito diferente do "transtorno bipolar de humor", eufemismo que inventaram para substituir "psicose maníaco-depressiva", e continuava à base de prozacs, zolofts, olcadils e outros medicamentos controlados que, provavelmente, acabaram com a vida do grande lutador Ryan Gracie e do excelente ator australiano Heath Ledger, dois homens de físico muito forte.
Na verdade, é a primeira vez, desde que me aposentei - ou melhor, FUI COAGIDO A ME APOSENTAR -, que resolvi falar desse assunto, com colegas que também passam por processo traumático de desligamento de uma empresa na qual gostariam de ter continuado por mais algum tempo, inclusive por que, aos 50 e poucos anos, a gente ainda se sente com muita "bala na agulha" e muita "lenha por queimar".
Algum "idiota da objetividade", como bem definiu Nelson Rodrigues, poderia dizer: "Ah, mas você aderiu ao PAA porque quis, a opção foi sua, não há o que reclamar etc, etc". Bolas, além dos danos morais e psicológicos, tive também prejuízo financeiro considerável, pois somente pude sacar o FGTS três anos depois, com valor já defasado pela mísera correção de 3% e a cessação dos depósitos pelo ex-empregador. Outro prejuízo, que só pude perceber agora, foi pelo fato de não haver completado 30 anos de contribuição na ativa (saí com 29 anos e 2 meses), o que - a exemplo de muitos outros colegas - alijou-me do Programa de Renda Certa da PREVI, quando da "distribuição" do seu monumental superávit. Para minha desagradável surpresa, recebi apenas dois "merrequentos" benefícios especiais (remuneração e proporcionalidade). Ora, vão para a pata que os pôs, diria Zeca, meu amigo português.
Depois de toda essa tiorega (aprendi esse termo com um amigo potiguar), digo que estou buscando subsídios para tomar a decisão sobre constituir ou não advogado para acionar o Banco do Brasil por danos morais/psicológicos e os prejuízos financeiros que sofri com a antecipação de minha aposentadoria. É possível que conheçam outros casos semelhantes ao meu, e gostaria de trocar idéias a respeito.
Abraço fraterno do Aposentado a Contragosto,
Ivan Mangeon Werneck

